Gaia continua fiel ao S. Gonçalo

O relógio marcava as 17 horas. Mais minuto. Menos minuto. E em redor da igreja de Mafamude já centenas de gaienses esperavam pelo santo padroeiro. Nem o frio e a chuva demoveram os presentes. Casacos, cachecóis, luvas e gorros faziam parte da indumentária de grande parte da assistência.
Na rua estava a primeira festividade do ano. De Gaia e do país. O São Gonçalo, o padroeiro dos barqueiros do rio. Mas o santo não anda só. A par dele estão as figuras de São Roque e de S. Cristóvão. Os Mordomos dos Mareantes do Rio Douro transportam, durante a festividade, a imagem de S. Gonçalo, a cabeça de S. Cristóvão (padroeiro das gentes do mar) e um terceiro elemento que encarna a figura de São Roque. As Comissões Antiga e Nova da Rasa transportam a imagem de S. Cristóvão e a cabeça de São Gonçalo. Os três grupos desfilam durante todo o dia pelas freguesias de Santa Marinha e Mafamude, arrastando com eles centenas de pessoas.
E os gaienses vão passando, beijando as imagens e pedindo por um ano melhor. Os mais velhos aproveitam para ir rezando enquanto assistem à passagem.
E tudo termina na igreja de Mafamude. “Aqui vai o S. Gonçalo” é a expressão que capta a atenção da assistência. Aproximavam-se os primeiros mordomos. A Comissão Antiga da Rasa (a Rasa de Cima) foi a primeira a chegar. E notou-se. Os cânticos ecoaram e aqueceram os ânimos dos presentes. Os mais novos gritavam ‘o santo é nosso’ e os devotos respondiam com o tradicional ‘e é é é’! Entraram na igreja, rezaram e seguiram-se as três voltas ao templo. No final, um pequeno compasso de espera para receber os mareantes. Depois de se cumprimentarem, os mordomos dos mareantes deram início à mais esperada entrada de igreja. Metodicamente, os ajudantes vão confirmando que os rituais estão a ser seguidos à risca. As figuras dos padroeiros devem entrar na igreja de costas para o altar. Ou correm o risco de perder o S. Gonçalo para uma das comissões. Mas tudo correu pelo melhor. Os mareantes continuam com a responsabilidade mor no S. Gonçalo.
Depois da reza, os mordomos ‘devolvem’ à população a imagem do santo e em uníssono ostentam a alegria de a transportar. Este é possivelmente o momento alto da festividade. Centenas de pessoas se empurram e gritam ‘o santo é nosso’. Entre empurrões e gritos, todos se sentem abençoados pelo santo e pelo sentimento de dever cumprido. Seguem-se as voltas à igreja, com mais ou menos empurrões.
A Comissão Nova entra agora em cena. Mais beijinhos e pedidos aos santos. E mais uma reza. As músicas vão mudando apenas pelo tom de vozes. ‘Aqui vai o S. Gonçalo’ e o ‘Santo é nosso’!
O que não faltou, nos três grupos, foi mesmo o barulho dos bombos. Os tambores grandes e pequenos levados por velhos, novos e crianças são imagens de marca da festa de janeiro.
Mesmo no final, a chuva miudinha fica mais grossa. A multidão dispersa e os comerciantes arrumam as trouxas. O negócio estava feito.
Restavam as farturas, queijos e presuntos. A fome aperta depois da espera. As farturas assumem no final o papel mais importante. É na primeira festa que se comete o primeiro pecado da gula anual. Pelas filas, certamente o pecado se transformou em satisfação.
Entre tradição, comércio e empurrões, salvam-se os santos padroeiros. Para o ano voltam à rua… se Deus e os santinhos assim o quiserem…

O santo é nosso
O vereador da cultura, Mário Dorminsky, reconhece a popularidade do S. Gonçalo: “A primeira Festa do ano…uma festa sacro, mas também pagã que, apesar disso, culmina na Igreja de Mafamude aos gritos de “o santo é nosso”. As portas da igreja estão assim abertas para receberem a cabeça de S. Gonçalo que os Mareantes do Rio Douro têm de levar junto do altar que faz parte da tradição secular da Festa”.
E se esta festa é importante, muito se deve à adesão popular que se vai mantendo. “Cá por fora, estão sempre centenas de pessoas. Este ano a chuva (miudinha) que se fez sentir não impediu a manutenção, diga-se que recente, de uma autêntica romaria popular onde não faltavam os tachos para venda ou as bifanas nas dezenas de “barracas” ali montadas. As farturas continuaram a ser um sucesso e a música “pimba” o som de fundo que animou quem aderiu a esta festa secular. Foi mais um S. Gonçalo. Para o ano há mais”.

São Gonçalo
São Gonçalo é o santo português que, logo depois de Santo António de Lisboa, goza da maior devoção, sobretudo a Norte de Portugal.
Gonçalo nasceu em Tagilde, concelho de Guimarães, em 1187. Estudou na Arquidiocese de Braga e, ordenado sacerdote foi nomeado pároco de São Paio de Vizela.
Seguindo a corrente piedosa do seu tempo, empreendeu uma longa peregrinação a Roma e a Jerusalém.
Após o regresso, estabeleceu-se em Amarante, onde, a par do zelo apostólico, se entregou à vida contemplativa.
Faleceu no ano de 1259. A biografia está recheada de um sem número de lendas, entre as quais a que se refere à construção (ou restauro) da ponte sobre o Tâmega, em Amarante.
Ao lado desta ergue-se o mosteiro que D. João III mandou construir em sua honra.
São Gonçalo foi beatificado pelo papa Pio IV, em 1561.
Liturgicamente, celebra-se a memória de S. Gonçalo no dia 10 de Janeiro.

Oração
Ó Deus, Vós manifestastes as vossas maravilhas na alma do Vosso servo Gonçalo, inflamada no amor do Vosso nome; concedei-nos a graça de, à sua imitação, termos sempre o pensamento em Vós e fazermos com fervor o que Vos é agradável.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amen.

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3 comentários a “Gaia continua fiel ao S. Gonçalo

  1. Que nunca se perca esta grande tradição embranças da minha judentude neste dia todo os jivens do meu tempo iamos para junto da casa RITA PORTO nde fica o antigo tribunal esperar o SÃO GONÇALO que se juntavão os dois a tocar os tambores a quele que mais força toca-se levava a oferta maior ganhava smpre os MARIANTES DE GAIA grande saudade não fui ver por motivos dedoença grave muito obrigada por esta oportinidade por ver pela vossa mensagem

  2. a minha familia ja toca na rasa debaixo aos anos e nao é de ganhar nada, mas nao á melhor grupo du que a rasa debaixo claro

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